terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Portões do Inferno

Você fechou seus olhos e disparou sem direção.
Cansada da tensão, deveria ter largado sua arma.
Eu não sei quantas pessoas você levou consigo. Nem sei se acabou se matando depois...
Lembro vagamente de ver algo como o sangue descer da minha testa aos meus olhos, e tudo escurecer...
Me deparei em frente aos Portões do Inferno.
Com uma certa vestimenta estranha e com os pés descalços. Era só barro e lava, como nos livros e nas imaginações das pessoas.
Minhas mãos estavam sujas, alias, reparei que todo meu corpo estava imundo.
Fazia calor, ouvia gritos e quase não dava para aspirar aquele ar sujo.
Eu via todas as formas de pessoas. Conseguia ver toda a sujeira por dentro delas, mas não conseguia ver o quão sujo fiquei por dentro...
Senti ódio, chorei, gritei por horas, por dias, até a garganta estourar.
Não poderia aceitar que aquilo estava acontecendo comigo. Não poderia aceitar que quem eu sempre amei tivesse me atirado para o próprio inferno.
Depois de dias, finalmente resolvi seguir o único caminho que me restava. Uma ponte de madeira, intacta. Era tão perfeita que estava na cara que ia arrebentar.
Tive medo. Lá de cima olhava o Inferno todo praticamente, alias, nunca saberei se aquilo era realmente o Inferno.
Fechei meus olhos e comecei a andar, passo por passo, até começar novamente a sentir o barro daquele chão quente. Percebi então, quando abri os olhos, que já havia passado a ponte.
Quando comecei a caminhar para o grande vazio que havia na minha frente, tudo começou a escurecer mais, e a mudar de forma. Caia agora neve de cima, mas o chão ainda estava quente. Senti que estava em cima do Inferno.
Formas estranhas se formavam no céu, Auroras Boreais, Estrelas Cadentes e alguns Meteoritos ao longe.
Não sentia mais medo, cansaço, fome, sede, ou qualquer exaustão.
Só não conseguia parar de pensar em onde você estaria agora. Estaria rindo ? Chorando ? Arrependida ? Orgulhosa ? Satisfeita ?
Mas ali estava eu, andando. Estava preso em uma terra que parecia sem dono. O fim do mundo começou ali, e parecia que eu era o único sobrevivente.
Mas, de repente, ao longe avistei algo. Era uma casa de madeira do lado de uma árvore sem folhas e com frutos estragados ao chão, um fruto que jamais vi.
Pensei, hesitei ao entrar. Mas, o que eu haveria de perder ?
Tentei empurrar a porta com calma, mas quando toquei naquela madeira velha e úmida a porta simplesmente sumiu, esfarelou...
A casa estava vazia. Havia algumas janelas quebradas e um banheiro trancado, uma escada para subir para os quartos e buracos no chão. Devido a escuridão, não se enxergava o fundo dos buracos ou se havia algo lá.
A aurora boreal era o que iluminava um pouco a casa.
Resolvi subir as escadas. Preferi não tocar em mais nada, nem nas paredes e nem nas portas. Tinha medo que aquela casa sumisse, pois era o único vestígio de forma humana que tinha naquele lugar que acordei.
Lá em cima tinha um corredor e apenas um quarto. Era uma porta azul, estava bem conservada, na verdade, estava praticamente nova.
Coloquei calmamente os dedos na maçaneta da porta, e girei bem devagar. Respirei fundo e a empurrei...
Mais um quarto vazio. Não!
Ao olhar para o lado me deparei com um baú. Corri feito louco, sem pensar em nenhuma consequência, coloquei as duas mãos no baú e puxei sua tampa com força e brutalidade. Mas nada havia lá.
Chorei novamente, pois sabia que não estava sonhando...
De repente ouvi uma voz me chamar por trás, dei um pulo de susto. Era uma forma de uma pessoa. Estava toda desconfigurada, era como uma imagem distorcida de um sinal ruim da televisão. Ela não tinha lados, era no minimo bizarro.
Senti medo, pela primeira vez. Um medo extremamente ampliado.
Essa forma me dissera coisas interessantes, tais como de que aquele mundo que eu havia sido enviado não tinha volta, que todos ali eram como ele, que eu nunca mais iria ver as coisas bonitas que existiam antes, que não sentiria mais confiança nas pessoas, que os sentimentos ruins agora seriam todos ampliados e que nunca mais poderia ver o sol ou as estrelas da mesma forma que eram antes...
Esse foi meu primeiro contato com esse mundo. Depois disso, fui levado para a cidade, que é bem feia por sinal. Suja, ás vezes quente demais, ás vezes fria demais, pessoas que não se importam umas com as outras. Um lugar totalmente sem esperanças...
Você me jogou aqui. Eu sei que você já passou por aqui também, sinto seu cheiro. Estaria você por aqui ?
Creio que não. Você está bem agora, você venceu. Mas não ficarei aqui por muito tempo, não mesmo...

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